Quarta-feira, 21 de Abril de 2010

Ti Bia

 

 

 

a minha ti bia, sempre de carantonha fechada, quando ria dava assim aquele berrozitos histéricos, que me soavam nem lembro  a quê. mas berrar, berrava ela comá porra, com os meus primos zé maria e nelson. o zé então, levava tanta, mas tanta porrada! o desgraçado era dia sim, dia sim, o nelson ainda era muita piquinino, tinha pouca mobilidade e ainda não fazia muita merda(aos olhos da vó bia), mas de vez em quando também levava umas nalgadas valentes. isto tudo ainda nos namorados, aonde a minha ti bia morou uma data de anos. tem duas filhas, cada uma de pai diferente, mas eu nunca soube muito bem a história, nem me interessei em perguntar, só sei que sempre a conheci viúva e não sei sequer o nome dos pais da minhas primas. tanta porrada, mas porrada valente, que o meu primo zé maria levava!! chamavam.lhe zé maria leão, isto já na vila; a ti bia já não morava nos namorados, agora tava na casa da filha maria teresa(o nome verdadeiro é maria francisca) com o zé bia e o nelson, a maria teresa era emigrante na alemanha e só vinham cá no verão. a ti bia lá continuava, na labuta, já tinha criado as duas filhas, sempre a bulir no duro, e agora ia criando à maneira dela dois filhos da filha mais velha, que tinha o outro com ela, lá na alemanha, o mais piquinino, que menos tempo esteve com a vó bia e dela lhe herdou efectivamente o nome, há.de ser o Bia até sempre(a cena de mudança de nome, tal como a mãe, teve mais casos na família, com manéis e anteros e mais não sei o quê), até a mãe o chama assim de vez em quando, o Bia não levou uma milésima parte das porradas que o zé maria levava, mas é assim, é ele o Bia. a filha mais velha veio da alemanha, dum todo, com o marido e o piquinino, a ti bia ainda ficou com eles por uns tempos. depois o marido da filha mais nova, a vida cá era dura e lixada e ele emigrou. tinham duas filhas. a mais velha da minha idade. paralisia infantil, a ti bia foi morar com a filha mais nova, para a ajudar com as filhas, principalmente com a dorita, que tem que ter acompanhamento quase permanente, para tudo. naquela altura ouvia falar tantas coisas da ti bia, que tinha um feitio terrível, das porradas do zé maria, que era assim, e assado, a mais velha de 9 irmãos, com uma filha da idade da irmã mais nova, a ti bia tinha tido uma vida de trabalho duro, acredito, concerteza que teve que se defender de muita coisa, que teve que ir à luta; até me lembro de ter tido não sei o quê, uma doença que de vez em quando a fazia passar umas temporadas de ferias ali no hotel de palhavã, e ele lá vinha fazer.se à pista; um ano até esteve no natal dos hospitais e tudo! a ti bia sempre foi rija à brava. tem um feitio terrível, sempre a envenenar, porquê? porque sim, porque ela é assim, a vida fê.la assim, com o molde de muita merda, porrada, trabalho e amargura que tantas apanhou em cima. que depois descarregou nos netos, no zé maria muito mas também no nelson. depois foi morar com a filha mais nova, na cozinha do quintal tá também o quarto dela, quando não está com a dorita. o genro já veio da suíça, quando  é preciso, a ti bia vai também ajudar no restaurante da outra filha, na altura da feira então, sempre a aviar. rija sempre, na cerca a apanhar azeitonas, com o lenço preto e por cima um chapéu de copa, muita velho, com a eterna bata e o avental velho por cima, com um casaco preto de malha por cima. ranzinza, mas também ria, também contava histórias, muitas das venenosas, gostava tanto de a ouvir, de dizer os palavrões que não ouvia à minha mãe nem às mulheres do meu mundo, gostava. era puto e muito respeitosamente tratava.a por Ti Bia, depois passei a tratá.la por minha Mari dos Ramos, e de vez em quando por tu, quando galhofávamos um com o outro. Quando a via na rua mandava.lhe sempre o minha Mari dos Ramos da ordem, até lho berrava do outro lado da rua, sem problema, oh oh! no meio disto tudo, a ti bia pertence lá à irmandade das irmanzinhas da nossa senhora da conceição, vai sempre à missa, às procissões todas e a fátima sempre que há excursões, é o que lhe sobra e que aproveita. continua a morar com a filha mais nova, mas só à noite; de dia tá no asilo, à espera de vaga para poder ficar lá sempre. gosto de ir vê.la sempre que vou à vila, vou lá sempre, falar com ela um bocadinho, velhota de oitenta e não sei quantos, custa.se a mexer, meio esquecida e variada à vezes, a minha Mari dos Ramos já não consegue ajudar ninguém, uma dia caiu, aleijou.se num braço e ficou muito em baixo. mas gosto tanto, continua rija, de vez em quando com os venenos dela, as amarguras e tristezas, as alegrias também, ainda nos rimos e gosto tanto. às vezes também nos abraçamos e choramos os dois; eu sou assim, fazer o quê?

tá ali no asilo, mas continua rija à sua maneira, aquilo que a vida fez dela.

“o Zé Maria, quando vem cá à vila, vem aqui ver.me antes de ir a casa da mãe, quando se vai embora, também se vem sempre despedir” disse.me ela no domigo de páscoa.

até à próxima minha Mari dos Ramos, dei os beijinhos à Madalena e ao Pedro.




rbl às 23:00
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